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Gravura + Cupins: algumas considerações

                                                                                                                              Por Marcelo Calheiros

            Uma estampa é um objeto complexo. Ela é o resultado de um esforço muito grande na luta entre a intenção e a resposta que certos materiais ofertam. Oriunda da estamparia, da ourivesaria e do entalhe, ambos os produtos, quer matriz ou estampa, são jóias preciosas esperando um olhar atento e apaixonado. Seu maior legado, o múltiplo, traduz sua proximidade com signos ancestrais ligados à natureza e sua vocação para a democratização e acessibilidade do conhecimento. A figura mítico/mágica do artista cria um lugar de excelência técnica.
Os Ateliers de Reprodução, como os de Rafael e Rubens, difundiram e redefiniram as possibilidades de aplicação da imagem e texto impresso, mas, também criaram subcategorias de artífices que eram treinados para a perfeição de seus fazeres. A forma hierárquica e aparentemente fria com que solucionam quase matematicamente o processo de feitura da imagem forneceram uma idéia mais racional do uso do processo onde a expressão não tinha muito espaço. Porém, nem todos permaneciam presos a tais limitações. Profundamente influenciado por Hercules Seghers, Rembrandt grava suas próprias chapas de cobre, inverte cenas inteiras, legitima o caráter expressivo da ponta seca e funda a idéia de um novo artista/pintor/gravador. O legado de inovações técnicas propostas por este artista, infelizmente, seriam obscurecidas por séculos de pragmatismo funcional condenando seu aspecto mais criativo a um segundo plano.
Este confronto entre marginalidade, imitação e autonomia, gerou uma equação maldita que só viria e ser solucionada séculos depois com a retomada da arte da gravura pelo moderno e autônomo artista do século XX. Muitos agora desenham, gravam e imprimem suas próprias estampas abrindo caminho para aspectos mais pessoais e subjetivos. Diante de tal fato, é preciso pensar que fazer gravura hoje implica estar ciente de uma intrincada cadeia de fatos e eventos que nos torna (querendo ou não!) participantes de uma longa e extensa História.
Quando o gravador Marco Buti diz que “a gravura é o menos múltiplos”, ele não nega uma tradição pré-existente, mas, afirma que, após séculos de experiência, podemos nos concentrar mais em questões ligadas a linguagem, pois, existem meios mais baratos e eficazes para longas e cansativas tiragens. Este fato, longe de ser sua maldição, é uma conquista da arte diante de sua própria história.
            No Brasil, as técnicas de gravura não seguiram uma ordem cronológica. Quando Pallière lecionava e produzia impressos litográficos por aqui (em 1817, apenas 20 anos após sua invenção) a xilografia e a calcografia já haviam obtido seu auge e iniciado o declínio em solo europeu. Em um país jovem como o nosso, a litografia se desenvolveu assombrosamente rápida, acelerando o mercado de impressos e disseminando de maneira mais ágil a informação, principalmente aquela ligada ao humor. Assim, os denominados pasquins tinham uma função social bastante importante e seus estabelecimentos “graphicos” ganharam respeito e notoriedade em sua época, principalmente no que se refere à  qualidade dos impressos litográficos. São referências os nomes de Ângelo Agostini e Bordallo Pinheiro, respectivamente em São Paulo e Rio de Janeiro, mas, no Rio Grande do Sul, tal competência não devia nada às grandes metrópoles. Jornais como A Sentinela do Sul, em Porto Alegre (1867), O Amolador, em Rio Grande (1874), O Cabrion (1879) e A Ventarola (1887), em Pelotas, são marcos deste tipo de imprensa que tinham como característica uma forte identificação com as causas republicanas e abolicionistas, assim como o profundo repúdio aos poderosos.
            Neste cenário, destaca-se o nome de Thadio Amorin (caricaturista riograndino) e, em Pelotas, Eduardo Guerra e o litógrafo Eduardo Chapon.  Destaco as Litografias Parisiense, o Estabelecimento Graphico Chapon, a Lithographia Guarany e as Oficinas Gráficas Livraria do Globo. Assim como em Pelotas, em nossa cidade a imprensa se encarrega dos primeiros passos, sendo gradativamente substituída pelas oficinas litográficas. Pouca informação existe sobre tais estabelecimentos, mas, sabemos que dedicavam-se principalmente ao ao ofício da tipografia e litografia.
         Um exemplo de competência era a Lithographia Imperial Wiedemann & Siqueira, possivelmente uma filial de Porto Alegre, situada na Rua dos Príncipes, nº. 79, onde se encontravam grande parte dos estabelecimentos gráficos de Rio Grande no século XIX. As livrarias também ofereciam serviços de impressão. A Meira, a Americana, mas, principalmente, a Rio Grandense, de R. Strauch e filhos, situada na Rua Marechal Floriano, oferecia serviços de papelaria, tipografia e litografia até meados da década de 1930. A empresa Leal Santos é uma das últimas referências que obtive do uso da litografia em nossa cidade. Para mim, em especial, ela traça uma relação bastante curiosa, já que, em minhas mais tenras memórias, ainda muito menino, pisei em um conjunto de pedras cobertas de delicados desenhos. Só me dei conta de que se tratavam das pedras litográficas da Leal Santos quando, estudando gravura em Pelotas (mais precisamente, na disciplina de litografia), revivi aquela emoção de menino. Ao comprar pedras litográficas da educadora e artista Carlinda Valente (que adquiriu as pedras do piso da Gráfica Mundial (Pelotas) e da Leal Santos (Rio Grande), possivelmente, posso ter adquirido, por encanto e magia, as mesmas pedras do meu tempo de menino. Com as modernas técnicas de impressão como o off-set e a fotocópia, a gravura só será adotada novamente em ações ligadas ao ensino da arte e em atelieres particulares. A equação hierárquica entre aprendiz/mestre, que figurava nos atelieres renascentistas, dá lugar ao ensino da técnica para a arte e o ensino da mesma.
            Na academia, a xilografia (talvez pela facilidade de execução e baixo custo de material) floresceu de maneira mais direta, não só na UFPEL, como também na FURG. Porém, já na década de 1980, através de projeto aprovado junto a Funarte, Pelotas passou a trabalhar também as técnicas de litografia e calcografia. Já em 1987, alunas egressas do ILA/UFPEL se reuniam em torno de um atelier particular, o “Artelier”, com o objetivo de desenvolver profissionalmente seu trabalho como artistas gravadoras e educadoras. Tal fato vai acontecer em Rio Grande, entre os anos de 2000 e 2001, quando instalo meu atelier na Rua Revocata de Mello, nº. 63, onde trabalhei com minha amiga Viviani Kwecko. Ali, além de trabalharmos a monotipia e a xilogravura, ocorreram dois fatos bastante importantes. O primeiro foi a visita do artista Rubem Grilo, que orientou em um bate papo bastante informal, a produção e os portfólios de alguns jovens artistas. O segundo trata-se da impressão (após quase quatro décadas) de uma co-autoral litografia, realizada em desenho na pedra por Viviani e impressa por mim na prensa que pertencia ao Artelier.
            Após um retorno a Pelotas, ministrei aulas de desenho e gravura na UFPEL. Paralelamente, junto com Roberto Barbosa e Ceres Torres, formamos um novo atelier, a Oficina de Produção Coletiva, onde desenvolvíamos, além da xilo da e calcografia, um intenso trabalho em torno do universo do livro. Ao retornar a Rio Grande, fui selecionado em concurso para professor substituto, junto ao DLA/FURG, onde comecei a ministrar as disciplinas de desenho e escultura.  Nesta instituição, entretantos amigos, encontrei, na figura do professor José Flores, a parceria para desenvolver algumas propostas no campo da gravura. Neste momento, eu também desenvolvia um projeto no atelier de gravura na UFPEL, coordenado pela professora Ângela Pohlmann, com o título de “Uso de Fotopolímeros na Gravura em Metal Não-Tóxica”, com os seguintes integrantes: Alexandre Lettnin, Carolina Corrêa Rochefort, Cristina Barbosa Noguez, Daiana Dellagostin, Kelly Wendt, Luiz Roberto Barbosa. Segundo Ângela: “Este trabalho partiu de uma pesquisa que procurou verificar a exeqüibilidade de métodos e procedimentos alternativos para a gravação da imagem (na gravura em metal), que não agridam o meio ambiente nem a saúde do artista-gravador.”.
Em um diálogo com Flores, achamos interessante a possibilidade de aplicação de tal proposta no atelier da FURG, o que viria a se fortalecer após a Semana dos 30 Anos do Curso de Artes Visuais da FURG, em 2007. Este evento foi muito importante para a aglutinação de um grupo de pessoas em torno da gravura, e contou com as presenças dos artistas/professores Alexandre Lettnin e Wilson Cavalcante. A palestra de Alexandre e o curso de Cava foram fundamentais para aguçar a curiosidade de diversos estudantes do Curso de Artes Visuais, alguns dos quais viriam a dar corpo ao Projeto de Pesquisa Oficina Permanente de Desenho e Gravura, oferecido à comunidade acadêmica pelo professor José Flores. Somando-se a este fato, busquei aproximar os projetos dos atelieres de Pelotas e Rio Grande, passando a trabalhar também no atelier de gravura da FURG com a técnica da calcografia e uma nova preocupação ligada a redução de toxidade e a busca de materiais alternativos para esta técnica.
A união de nossos esforços gerou um grupo de talentosos estudantes bastante interessados em desenvolver uma pesquisa em torno de suas experiências. Entre entradas e saídas, o grupo contou basicamente com os seguintes membros; Alisson Affonso, Denise Martins, Jarbas Macedo, José Antonio Vieira Flores, José Luís Salvador, Laura Cirne, Marcelo Calheiros, Sara Luzzardi Pinkoski e Tôni Rabello. O grupo, então, passou a adotar o nome de Cupins da Gravura. A origem desta associação entre xilogravadores e tais insetos devoradores de madeira não é tão recente, mas, a origem para o grupo de Rio Grande vem das brincadeiras e visitações a exposições de gravura realizadas em Porto Alegre, na Oficina de Produção Coletiva, quando brincávamos, eu, Roberto e Bernardo Corrêa, com a idéia de estarmos nos transformando, pelo prazer de gravar a madeira, em verdadeiros cupins. Dizíamos um para o outro “... isso é coisa de cupim...”, ou, “...bah! Tu tá tri cupim cara!!!!...”.
As atividades do grupo ocorreram sob coordenação minha e do professor Flores, começando por oficinas de monotipia sobre vidro, monotipias em aquarela e óleo de cravo, linoleografia e experimentos com a calcografia. Após o curso com o Cava, reparei que a prensa calcográfica (construída na FURG e “batizada” por Cava em 1986) precisava  de alguns ajustes. Trocamos a manivela, de um para três pontos de apoio, o que facilitou bastante seu uso, e providenciamos um berço de madeira, uma chapa de acrílico e um feltro. A entrada de José Salvador deu um novo fôlego à equipe, principalmente pelo uso do piso vinílico (material que ele já usava em suas pesquisas com a gravura em relevo). Prontamente, foi utilizado em experiências com o grupo sob a atenção e orientação de Salvador. Após um bom fluxo de trabalho nestas técnicas, o grupo se lança na calcografia. A princípio, como o atelier não possuía todas as ferramentas e materiais para a prática da calcografia, cedi algumas matrizes, buris, tintas e tarlatana, para que pudéssemos começar o trabalho. Experimentamos a impressão de minhas matrizes e fizemos algumas experiências usando o fenolite para gravar em ponta seca. Experimentamos o uso do sal e vinagre como mordente, e, depois, o uso do percloreto e do ácido nítrico. Também riscaram-se matrizes em polietileno e chapa de fibra de vidro que, mesmo sendo agressiva ao uso, mostrou resultados bastante expressivos.
Foram manifestações importantes do grupo algumas oficinas fora do atelier, como no Balneário Cassino (Ponto de Cultura ArtEstação e Feira do Livro). Também foram realizadas três exposições da produção em atelier do grupo e uma participação na VII Mostra de Produção Universitária, defendida pela acadêmica Denise Martins. Uma das ações mais importantes foi a oficina de gravura e a criação de um grupo de gravadoras na Escola de Belas Artes, organizada e ministrada pelo “cupim” Tôni Rabello.
Após as férias de julho de 2009, o Grupo Cupins da Gravura volta um pouco mais reduzido, porém, com uma nova integrante, a estudante Rosângela Armindo. Em um destes encontros, levei o livro Gravura em Metal, organizado pelos gravadores Marco Buti e Anna Letycia. Com a análise deste livro discutimos os materiais da gravura, sua arte e técnica, reforçando os debates anteriores. Porém, para Tôni, este guardava um estímulo a mais. Correndo o dedo pelo índice do livro, se deparou com um tópico, na página 168, sobre “eletrogravura”. Conversamos sobre um documentário que ele havia assistido, onde um presidiário teria escapado de sua cela, usando, para corroer a grade, uma mistura de água, sal e limão, agregando-se a esta operação a corrente elétrica, o que aceleraria o processo de corrosão do metal. Acendeu-se uma lâmpada! Curioso, Rabello se depara com a dissertação de mestrado do gravador Carlos Gonçalves Lima Filho, “A Busca da Imagem na Eletrogravura”, onde captura importantes informações na busca de aprimorar sua maneira de conceber/funcionar o mecanismo para realização da eletrogravura.
          Daí, unimos o conhecimento de Tôni a respeito de gravura/eletricidade com minha experiência técnica para começar a realizar algumas experiências. Porém, agora, em vez de usar água e sal, passamos a usar sulfato de cobre, alertados por Carlos Filho em seu texto, mas, também, com a grata colaboração do Sr. Rubilar, pai de Tôni: “...procurem no mercado, onde vendem material agropecuário...”.  A principio, usou-se como matriz uma chapa de fenolite, mas, sentimos a necessidade do uso de uma estrutura mais densa, de cobre, para testarmos a profundidade de gravação. Fomos a um ferro velho onde compramos chapas de cobre e, assim, fizemos as primeiras gravações, já com resultados bem expressivos. Mais recentemente, além de o grupo trabalhar na confecção deste catálogo, foi experimentado o uso de outros metais (por iniciativa de Tôni, o ferro e o alumínio) e, como estamos em um período de férias, transferimos as atividades para meu atelier, o qual, neste momento, ocupa um lugar generosamente cedido pela artista plástica Maria Helena Torres. Este é o verdadeiro espírito de cupim: nunca deixar de gravar.

Cassino, janeiro de 2010

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